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TEXTOS E ESCRITOS >> A coxinha ou a cultura
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A COXINHA OU A CULTURA


Sou um apaixonado confesso por cinemas! Por todos eles, do imponente multiplex à salinha do interior. No cinema é onde a nossa alma pode passear livremente, enquanto nos refestelamos gostosamente na cadeira, para então ela vir nos buscar, para levar-nos para casa, no final do filme.

Templo da ilusão e meca da fantasia. Não faz mal, pois o que é a vida senão uma grande ilusão influenciada por nossa percepção. No cinema podemos sonhar, nos apaixonar, ficar em suspense, morrer de rir. Também serve como termômetro de avaliação. Uma cidade pode ser mensurada culturalmente pelo número de cinemas que possui. Enfim, como o genial personagem do "Cinema Paradiso", poderia morrer se ficasse sem eles.

Mas não podemos viver só alimentando a alma. Enquanto ser integral que somos, precisamos cuidar do nosso corpo, satisfazer a nossa carne, as coisas da matéria. Então, precisamos de bons lugares onde possamos saciar nossa fome de comida em grande estilo. Para então voltarmos a alimentar a nossa alma no ciclo natural da vida. "A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte (cinema).

Salvador tem um lugar fantástico para assistir filmes de arte (para mim os melhores). A charmosa Sala de Arte do Baiano de Tênis, onde podemos tomar um bom café, ver alguns objetos de arte e assistir a fantásticos filmes. Mas Salvador também possui uma rede de delicatessem de primeira linha que é a Perini, padrão de atendimento e qualidade classe A, que é um orgulho para todos nós baianos. A Perini é um verdadeiro templo de consumo gastronômico da burguesia. A classe executiva vai ao paraíso, literalmente.

Então, surgiu nos jornais a notícia que a Perini abriria uma filial no mesmo clube onde fica o cinema. Perfeito, pensei, já imaginando assistir a um bom filme e depois ir comprar umas guloseimas. Corpo e alma irmanados como deve ser, se satisfazendo em um só lugar.

Aí, leio hoje nos mesmos jornais, que para a delicatessem chegar, tem que se tirar o cinema (?). Talvez isso aconteça por culpa da nossa cultura da separação, onde temos que praticar sempre o "ou" e nunca o "e". Ou vai para o cinema ou vai para a padaria. Você quer pão ou diversão? Comida ou arte?

Fico triste com isso, com a nossa dificuldade em integrar, incluir. E mais ainda porque parece que entre o estômago e o coração, neste caso vai vencer o primeiro. Nada estranho, já que vivemos numa sociedade "terra a terra" e onde o poder econômico sempre prevalece, dirão alguns.

Mas não importo de ser a minoria, se for o caso. Quero exercer meu direito de voto. E que me desculpe quem achar o contrário. Mas entre a Coxinha e a Cultura, eu fico com o cinema.

Mesmo porque, se votasse diferente, minha alma não me perdoaria.

Victoriano Garrido Filho
www.vgarrido.com.br
7199647165



 
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