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TEXTOS E ESCRITOS >>Burrinho Virtual
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BURRINHO VIRTUAL

Éramos todos jovens e cheios de sonhos. A marchinha dizia que éramos o futuro do Brasil. Vivíamos a estranha sensação - só experimentada aos vinte anos - de sermos candidatos a donos do mundo. O tempo era os anos 70. Íamos aos embalos de sábado à noite no cinema Tamoio assistir John Travolta (quem ousaria sonhar com os Multiplex?). O Presidente Figueiredo dava bom dia a cavalos, Juvená era o rei das praias, o Poeta Moraes Moreira proclamava nas FMs, novidade da época, que o Brasil estava descendo a ladeira e na AM França Teixeira dominava a cena do rádio chamando ACM do Pelé Branco das Construções.

No campo profissional, como estudantes de Administração da Ufba, sonhávamos em conseguir estágios e fazer carreira nas Estatais, verdadeiros templos do mundo corporativo. Banco do Brasil, Petrobrás, a emergente Caraíba. Tudo para que pudéssemos "botar nossos burrinhos na sombra" , como diziam nossos pais, citando um velho ditado muito em voga na época. Coelba, Telebahia e as então recentes empresas do Polo de Camaçari também eram cotadas. As multinacionais eram poucas, que globalização era palavrão em boca de comunista fobicoso. Só era pro bico de Gilberto Gil, aluno exemplar que passou por nossa escola e que trabalhou na Gessi Lever. O nosso sonho de consumo era o Chevette, que os importados ainda não eram populares. Sonhávamos também com a casa própria e a casa da praia, onde deveríamos nos instalar após nos aposentarmos "por alivio", nunca sem antes ter feito uma viagem à Europa, numa excursão tipo "a classe média vai ao paraíso", com a finalidade camuflada de matar nosso vizinho de inveja, numa antevisão da competitividade. (Patético!).

Quanto a se formar e continuar estudando, a hoje tão badalada educação continuada, era coisa de poucos e visionários, haja vista que a maioria praticava o ditado "hora de estudar, estudar e hora de trabalhar, trabalhar, apesar dos apelos dos nossos visionários Mestres Altamiro e Paulo Lopes. Empreendedorismo era ficção, montar negócios era coisa de maluco, ou gênio como era o caso de Nizan Guanaes, nosso colega de turma que se tornou o ídolo de todos nós. Empresas com idéias de vanguarda havia a Odebrecht e outras poucas.

Hoje quando volto às escolas na qualidade de Professor, torna-se inevitável comparar. Revejo meus colegas nos meus alunos, todos com celular na cintura, invenção impensável em nosso tempo assim como a Internet, prontos a disparar ao primeiro toque, numa espécie de "cowboy" do terceiro milênio. Vejo nos seus olhos a angústia por empregos que existem cada vez menos, mas que continuam em sua herança genética. Eles agora são obrigados a montar negócios e se transformar em EmprEUsas ambulantes e solitárias. Há que ser generalista, falar inglês e espanhol, ser multimídia, trabalhar o marketing pessoal e a Network fazendo contatos até em enterros e boates. Há que trabalhar a embalagem, porque andar "fashion" é fundamental nesta sociedade da aparência e do espetáculo. Apesar de tudo permanece uma preocupação: o que fazer com o burrinho?

Outro dia minha filha adolescente perguntou. Pai, se meu avô mandava você colocar o burrinho na sombra, o que devo fazer? Aceito sugestões, mas o melhor que me ocorreu na hora foi : Monte uma empresa - dessas que funcionam em escritório virtual - para alugar sombreiros para burros e mais tarde, quando a concorrência copiar, "virtualise" o burro. Afinal, quem tem tempo hoje para burros que precisam de sombra?

Victoriano Garrido Filho
Diretor de Educação Corporativa da ABRH-Ba
e-mail : garrido@vgarrido.com.br











 
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