AS COPAS DA MINHA VIDA
“A
taça do mundo é nossa, com brasileiro
não há quem possa”
Wagner Maugeri e outros
Comecei a entender o significado do que representa
uma copa do mundo, para nós brasileiros,
em 1970, quando, com apenas onze anos, pude ver
fascinado o Brasil ganhar o tri campeonato mundial.
Eu fazia parte daqueles noventa milhões em
ação, cantando pra frente Brasil,
salve a seleção, bem como a ditadura
da época. Íamos para a casa de uma
tia para assistirmos aos jogos, numa Rural de meu
pai, que tinha uma bandeira do Brasil no capô
(pois até ele, um espanhol da Galícia,
tinha se rendido aos encantos daquele time). Levamos,
finalmente, a taça Jules Rimet, transformada
em pingentes nos pescoços das madames, com
o roubo de 83.
Antes
de 70, na copa de 66, as lembranças são
raras: eu, menino, abaixado junto a um enorme rádio,
que transmitia os jogos da Inglaterra. Depois veio
a copa de 74. Íamos para casa de um tio ricaço
para assistir aos jogos numa televisão a
cores, uma novidade para poucos na época.
Uma espécie de TV de plasma dos anos 70.
A TV era colorida, mas o futebol da seleção
era preto e branco, em nada se comparando ao espetáculo
do tri.
Então
veio o vexame de 78, onde um Peru roubou a gente
e 82, onde não ganhamos, mas tínhamos
uma seleção de águias. 86 foi
a vez de um galinho tirar a gente do páreo,
através daquele pênalti perdido. 90
foi um fiasco e em 94 alcançamos o tetra
pra sermos penta em 2002, passando pela mal explicada
final de 98. Será que um dia a gente vai
entender o que houve com Ronaldo naquele domingo?
As
copas que não assisti e que gostaria de ter
visto: a de 50 (até hoje ainda fico tentando
entender a cabeça daquelas 100.000 pessoas
no Maracanã, naquele trágico dia),
e as copas de 58 e 62, onde um menino Pelé,
um irreverente Garrincha e um bando de craques fizeram
a diferença.
Assim
foram as copas e sua relação com o
brasileiro. Povo que é patriota de hora marcada.
De quatro em quatro anos, lavamos a alma e podemos
assumir nosso amor pelo Brasil, botar bandeirinha
no carro, sem vergonha e medo de sermos patrulhados.
É o nosso 04 de julho. Quem já passou
esta data nos Estados Unidos sabe do que estou falando.
Fico imaginando se a gente tivesse este sentido
de pertencer e este orgulho de ser brasileiro o
resto do tempo, o que aconteceria com este País?
Por
outro lado, é uma festa absolutamente democrática,
pois todos se sentem no direito de participar. Então
temos as reuniões na casa dos bacanas, regadas
a um bom scott e caviar, mas também temos
as reuniões da periferia, onde rola um gostoso
frango assado com cerveja.
A
nível mundial, a copa é uma maravilhosa
guerra do bem, uma verdadeira globalização
integrada, onde as bombas são os chutes dos
atletas, os mísseis os lançamentos
que vêm do meio campo, ainda com a vantagem
de podermos subverter a ordem econômica, com
os paises do primeiro mundo, a exemplo dos EUA,Japão
e Rússia, na rabeira dos mais pobres, a exemplo
do Brasil. Tínhamos que ganhar em alguma
coisa, né?
É
aí que entra o nosso verdadeiro milagre brasileiro.
Um país que tem o segundo pior índice
de desigualdade social, só ganhando de Serra
Leoa, onde grande parte de sua população
vive em estado de miséria e pobreza, é
o único que pode conseguir o hexa, ou seja,
a proeza de ser seis vezes campeão mundial.
E para isso temos uma seleção espetacular,
tão boa que não cabe no Brasil, pois
a grande maioria joga na Europa, que ninguém
é de ferro.
Mas
a copa está chegando e não é
hora de pensar nestas coisas chatas da economia.
Eu mesmo já comprei minha camisa da seleção,
um monte de quinquilharias que aproveitam para empurrar
para a gente nesta época e já me pego
cantarolando as marchinhas. Afinal, se é
para nos alienarmos, que o façamos em grande
estilo.
Victoriano
Garrido Filho
www.vgarrido.com.br