PECADOS CORPORATIVOS
Uma vez assisti a um show de Chico Anísio,
em que um dos seus memoráveis personagens
era inquirido por um padre sobre os pecados capitais.
Então ele arrisca, “Fazer xixi no muro
é considerado?” e conserta ao ver a
cara de reprovação do padre à
sua resposta, “Tem razão, este é
municipal”. Esta velha anedota retrata bem
a falta de conhecimento das pessoas sobre o tema,
uma invenção da igreja católica
sem registros na bíblia, com o objetivo de
controlar os instintos de seus inquietos fiéis.
O tema volta à tona, neste momento, por ocasião
do lançamento de uma novela global. Para
também dar minha contribuição,
resolvi dar um passeio pelo mundo corporativo, para
ver como eles se aplicam.
Primeiro, vamos falar da avareza, que representa
o desejo desordenado pelos bens materiais que não
conseguiremos levar para além túmulo.
Alguém aí está lembrando das
organizações pouco generosas, que
nunca têm o suficiente para o social e nem
para seus colaboradores? E a nossa distribuição
de renda nacional, absolutamente ridícula?
Alguém é capaz de calcular a desmotivação
causada pelos que fingem que pagam?
Então,
temos a soberba, representada pela arrogância
de alguns figurões, sempre prontos a esnobar
os pobres mortais que estão em posição
inferior, dentro e fora de suas empresas. E a gula,
ou pecado da comilança, muito bem representado
pelos fartos banquetes oferecidos para ostentação
e status, em claro desequilíbrio, num país
em que tantos passam fome. Normalmente, a gula vem
junto com a luxúria, transformando a beleza
do viver com simplicidade, sem penduricalhos, na
nossa sociedade do espetáculo, onde “parecer
ter” é melhor do que ter.
Tem a ira, sempre presente nos acessos de autoritarismo
dos chefes, ou da raiva aberta ou velada entre colegas.
A preguiça, ou seja, quando estamos na zona
de conforto por uma absurda acomodação.
Preguiça também em sua forma mais
letal, que é a preguiça de viver.
Alguém é capaz de calcular o custo
invisível para as organizações
dos que fingem que trabalham? Todo avarento tem
o preguiçoso que merece.
Então,
fechamos com a inveja, que simboliza o nosso descontentamento
em relação aos que têm e são,
o que não temos e nem somos. Sofremos a todo
instante com o sucesso e o dinheiro do colega ou
com o carrão novo que nosso vizinho teima
em estacionar na nossa porta, ou quando entramos
em desespero pelo pensamento comparativo, sem perceber
que se estivéssemos na vida daquele que invejamos,
vivendo seus dramas íntimos e camuflados,
talvez não suportássemos nem um dia.
A máscara do outro é sempre mais poderosa
que a nossa.
Por tudo isso, vemos que os pecados capitais também
são corporativos, mas penso que mais importante
do que conhecê-los, é perceber que,
assim como aconteceu com o divertido personagem
de Chico Anísio, estes pecados possam servir
para nos distrair e, então, nos levar a cometer
um grande equívoco, ou seja, fazer com que
a nossa busca por tantas coisas supérfluas,
como alimentar a nossa fogueira de vaidades e correr
atrás de nosso ouro de tolo e da nossa vidinha
burguesa, nos leve a esquecer, do que é essencial
para celebrarmos a vida.
Então
podemos dizer que este sim, é nosso pecado
federal.
Victoriano
Garrido /// www.professorgarrido.com.br /// 7199640626