Se tudo passa, tudo passará, com o carnaval
da Bahia, não poderia ser diferente. Relembrando
os carnavais que já passaram em minha vida,
resolvi fazer esta crônica, pois recordar
é viver...
OS CLUBES
O carnaval dos clubes era uma delícia! Ficávamos
dando voltas no salão, ao som de marchinhas
animadas, aguardando ansiosos o “Corre Corre
Lambretinha” para acelerarmos o passo! Quem
não lembra com saudade do Baile Preto e Branco
do Bahiano? Ou das festas do Centro Espanhol, na
Vitória? Época que as músicas
eram mais importantes que os músicos e os
artistas! Hoje, temos uma exceção,
criada por Carlinhos Brown, com o Baile do Bloco
Parado e a lembrança da lambretinha, nas
memoráveis voltas no Gueto / Museu du Ritmo,
da sua Timbalada.
A RUA
A Rua também se transformou! A Praça
Castro Alves, assim como a maioria dos circuitos,
já não é tão do povo
assim, pois foi privatizada para turistas e bacanas,
que pagam caro para sair nos blocos. Ao povão,
restou neste nosso “Apartheid” camarada,
o emprego de cordeiro a R$ 20,00 o dia, catar latas
e ficar espremido no passeio. Ë bom que se
diga também, que é a única
chance do povo ver seus grandes ídolos de
graça, pegando carona nos Blocos. O que precisa
é ordenar melhor o espaço público.
FORÇAS ARMADAS
Uma lembrança dos tempos de menino que guardo
é quando íamos passear na orla de
Salvador, na nossa velha Rural e passávamos
pelo Quartel de Amaralina. Via o cuidado de meu
pai, de não invadir a faixa da direita, onde
carros não podiam transitar. Eu, menino impregnado
com as histórias da revolução,
ficava tenso, já nos imaginava presos por
cometer tamanha infração. Hoje, vejo
com graça este quartel se transformar em
“lounge” para socialites e militares
foliões cedendo espaços para construção
de camarotes. Uma idéia! Que tal ali no Quartel
da Aeronáutica, um Bem Público, funcionar
um camarote para o povão como temos no Campo
Grande?
ORGANIZAÇÃO
O carnaval era uma despretensiosa festa, uma brincadeira
entre amigos, de onde surgiram inclusive a maioria
dos blocos e agremiações. Hoje, virou
negócio de gente grande, exemplo de profissionalismo,
atraiu o interesse de patrocinadores do nosso Sul
maravilha e movimenta milhões. Faz parte
de uma estratégia que vende nossa pobre Bahia,
como terra folclorizada da alegria, terra de berimbaus
metalizados, uma espécie de “Ilha da
Fantasia”, do seriado da TV.
FOLIÃO
Dos alegres “caretas” da minha infância,
nosso folião também mudou. Trocou
sua mortalha por um abadá, onde “mauricinhos”
doidos para beijar as “patricinhas”,
se misturam a foliões fantasiados, cada vez
mais raros. Mérito a Margarete Menezes, que
com seu bloco dos “Mascarados” dá
uma contribuição incrível à
memória do nosso carnaval.
Agora uma constatação! No meio de
tantas mudanças, consegui achar alguma coisa
que continua igual. É que atrás do
Trio Elétrico (que mudou, pois já
foi uma Fobica), como diz nosso poeta Caetano, continua
só não indo quem já morreu!
Viva o carnaval!