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TEXTOS E ESCRITOS >>Pobres apaixonados
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POBRES APAIXONADOS

"Eu agirei como se minhas atitudes fizessem diferença"
Willian James

Seu Amilton saiu de casa para mais um dia de trabalho. Como Tratorista tinha uma rotina árdua e nada glamourosa e sabia que sua chance de brilhar na TV era menor que ganhar a mega sena. A tarefa do dia era derrubar uma construção lá pelos lados da periferia, numa invasão chamada Palestina (?). "O Haiti é aqui e agora".

Dona Telma acordou cedo. Como dona de casa aplicada, precisava arrumar as coisas e providenciar o café da família antes de ir para o seu trabalho, como merendeira numa escola municipal do bairro. Apesar de seu lindo ofício, alimentar crianças com muita fome, sabia que seu destino não contemplava aparições na TV. Duas vidas que se cruzaram naquela sexta-feira, de forma trágica e comovente, para emocionar o País.

Dona Telma tinha perdido na justiça sua casa que morava há dez anos, ela ia ser derrubada. A cena estava armada e assim como tantas outras não prometia surpresas. Lá estavam todos os personagens desta comédia da vida real, o Oficial de Justiça, a Polícia Militar, o suposto Proprietário e o povo, que a tudo assistia, magnetizado como se fosse um filme ao vivo, no cinema da vida. Tudo pronto para o início do espetáculo, quando dona Telma resolve perder a "cerimônia" e sai do seu papel de vítima passiva, gritando de dor, "pobre" senhora, apaixonada pelo seu único bem.

Aqueles gritos chegam até Seu Amilton, simples figurante, no seu mecânico e coadjuvante papel de "Carrasco" da situação. Por uma estranha ligação, eles se conectam e aí ele surpreende a todos ao negar cumprir o seu "reles" papel na cena. O Oficial de Justiça, o ameaçou com pompa, aproveitando os holofotes da TV e dos jornais e o declarou preso em nome da justiça (?). O Soldado ordenou que ele endurecesse o coração (?). Era preciso cumprir a ordem, por mais idiota e desumana que lhe parecesse. Aos coadjuvantes não cabem pensar e nem usar o senso crítico, e sim executar roboticamente o determinado. Seu Amilton até que tentou, mas o seu sentimento de humanidade compartilhada e empatia com a dor de dona Telma foi mais forte.

Seu Amilton tentou de novo, não era um rebelde ou revolucionário, mas de novo não conseguiu. Sua Alma lhe implorava que não. Então Seu Amilton, no dia em que Tarcísio Meira deu show interpretando um Vampiro moribundo, que Mulheres Apaixonadas desfilaram com graça e simpatia, que religiosos pregavam sua fé e que Datena e Ratinho cuidavam da violência e do bizarro, roubou a cena de todos e se transformou no grande astro da noite na TV, com direito a aparição no Jornal Nacional..

Ele um "pobre" apaixonado pelo próximo, virava então herói do povo, um herói como Ghandhi, sem violência ou bravatas. Obrigado Seu Amilton, por nos mostrar que é possível a solidariedade entre os seres humanos, apesar das leis e do sistema.

Victoriano Garrido Filho
vgarrido@terra.com.br











 
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